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TSMC: como a gigante de Taiwan prosperou em meio a conflito entre EUA e China

Fabricante de semicondutores se tornou vital para sobrevivência de empresas como Apple e Google, mas também garante aos EUA vantagem militar sobre a China.

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Tempo médio de leitura: 9 minutos

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A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China é tão complexa quanto determinante para o futuro da economia global. E poucas batalhas ilustram tão bem este processo quanto a que envolve a capacidade destes países em produzir equipamentos com altíssimo poder de processamento computacional. No centro desta disputa está uma empresa desconhecida do grande público, mas que não sai da cabeça de políticos chineses e americanos: a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), de Taiwan. 

Sede da TSMC antes da divulgação de resultados. Crédito: An Rong Xu/Bloomberg

Considerada por muitos como a melhor e mais eficiente fabricante de semicondutores do mundo, ela mantém plantas que produzem cerca de 25% dos chips do planeta – usados em praticamente tudo que tem um botão de “liga/desliga”: carros, aviões, celulares, computadores e também torradeiras, rádios a pilha e até lâmpadas. 

Este é um mercado também disputado por outras gigantes, como Intel e AMD. Mas é nos chips de altíssima tecnologia e enorme capacidade de processamento que a TSMC nada de braçada: 90% deste mercado é dela. E até agora nenhuma concorrente conseguiu de fato ameaçar a empresa taiwanesa.

Dito de outra forma, ninguém faz o que a TSMC faz e do jeito que faz: desenvolve e produz em larga escala tecnologias avançadas que definirão o futuro de como a humanidade consome, se relaciona e trava guerras. 

É sobretudo neste último aspecto que o governo dos Estados Unidos está interessado. Tão importante quanto manter a TSMC como fornecedora de empresas como Apple e Nvidia é evitar que companhias chinesas e Pequim coloquem as mãos em tecnologias que hoje dão à maior economia do mundo vantagem militar. 

Foi desta forma que a TSMC se tornou símbolo do que tem sido chamado por especialistas de a “guerra dos chips”, que ganhou as manchetes no fim do ano passado quando o presidente americano, Joe Biden, determinou restrições para evitar que fabricantes de semicondutores sob influência econômica e política de Washington vendessem equipamentos aos chineses. 

Como os EUA se tornaram dependentes da TSMC 

Sede de empresas globais de tecnologia como Google, Apple e Facebook, o Vale do Silício, na Califórnia, não tem este nome à toa. Silício é o elemento químico mais utilizado para a fabricação dos chips, que determinam como praticamente todo equipamento eletrônico vai funcionar. 

O silício é um semicondutor, o que significa que ele está em posição intermediária quanto à condução de energia elétrica. Não é condutor como o cobre, mas também não é isolante como o vidro. Por esta e por outras características, o silício é o material ideal para a fabricação dos chips, essas peças minúsculas, incrivelmente complexas e das quais dependemos enquanto humanos modernos.

Crédito: An Rong Xu/Bloomberg

As gigantes de tecnologia do Vale do Silício são algumas das companhias especializadas em desenhar chips com alto poder de processamento. A Nvidia viu seu valor de mercado superar o trilhão de dólares depois que os investidores perceberam nos chips da empresa a base da nova economia alimentada por inteligência artificial. 

Mas a Nvidia não fabrica seus chips, ela os projeta. E depende da capacidade de produção de fabricantes taiwanesas como a TSMC para manter seu negócio de pé. E não só ela. Estima-se que 90% dos chips demandados por Apple, Amazon, Google, Qualcomm e AMD sejam fabricados na pequena nação insular que fica a só 130 quilômetros da China continental. Esta é outra parte do problema. 

No momento, Estados Unidos e as maiores empresas americanas não têm outra opção que não a dependência de Taiwan e de suas fabricantes de semicondutores, especialmente a TSMC. Concorrentes têm investido bilhões de dólares para não ficar para trás na capacidade de produzir os chips mais desenvolvidos do mundo. 

A Intel, por exemplo, tem travado uma batalha midiática com a TSMC, fábricas de semicondutores na China estão recebendo atenção, investimentos e muita pressão de Xi Jinping. Nada disso, no entanto, parece ameaçar por agora o reinado da companhia taiwanesa. 

Analista de ações e de macroeconomia global da Investing.com, Thomas Monteiro explica que os EUA simplesmente não podem correr o risco de comprometer os negócios das big techs, sob o risco de afetar a própria economia como um todo e de minar a própria influência geopolítica nos próximos anos. 

“Se os Estados Unidos abrirem mão da TSMC, vão perder a corrida tecnológica contra a China. Os americanos vão tentar torná-la menos imprescindível ao mesmo tempo em que vão mantê-la por perto”.. 

Thomas Monteiro, Analista da Investing.com.

Ele argumenta que as recentes regulamentações impostas pelo governo Biden às empresas americanas com o objetivo de levar para os EUA parte da complexa cadeia produtiva de produtos de alta tecnologia passaram a ser burladas pelas próprias companhias. “As empresas se adaptaram para continuar a produzir na Ásia e assim não elevar os custos. A legislação inicial, do ano passado, deixou alguns buracos, e agora estão vindo novas regras para evitar que as empresas contornem a regulamentação”. 

Taiwan x China 

O nome oficial de Taiwan é República da China, enquanto a China continental se autodenomina República Popular da China. Ou seja, os dois territórios reivindicam para si o papel de uma “verdadeira China”, divisão que acontece desde a Revolução Cultural Chinesa que colocou Mao Tsé-Tung e o Partido Comunista Chinês (PCC) no poder. 

Obviamente, Taiwan e China não se dão muito bem. E o desenvolvimento econômico notável pelo qual passou também Taiwan ao longo das últimas décadas tem muito da influência ocidental, especialmente americana. Já faz décadas que os processadores que são a base da economia tech dos Estados Unidos passaram a ser fabricados na ilha, cujo território é reivindicado pelos comunistas até hoje. 

Conforme a temperatura do conflito geopolítico entre EUA e China vai subindo, cresce também o temor de que a disputa envolva confronto bélico, com uma possível invasão chinesa a Taiwan sempre debatida pelos observadores internacionais. 

Os americanos têm tratado Taiwan como uma nação aliada estratégica, fazendo de tudo para evitar que a influência de Pequim cresça na ilha. E, embora não reconheçam Taiwan como um estado independente – a Política da China Única, da qual o Brasil também é adepto –, os EUA também têm dado suporte militar aos taiwaneses, doando milhões de dólares e vendendo para Taiwan equipamentos de guerra americanos. 

Futuro da TSMC 

O historiador econômico americano Chris Miller, autor do livro “A Guerra dos Chips”, tem sustentado em entrevistas que os bloqueios impostos aos chineses pelos Estados Unidos têm sido eficazes em retardar o desenvolvimento de chips na China. 

A TSMC também está sob pressão para construir mais fábricas em território americano. Outros países, como o México, aparecem como alternativa para a estruturação de uma indústria de semicondutores menos arriscada geopoliticamente, pelo menos do ponto de vista dos Estados Unidos. 

TSMC. Crédito: An Rong Xu/Bloomberg

Mas o México ainda é só uma conjectura e uma fábrica da TSMC no Arizona teve inauguração adiada de 2024 para 2025. Das 18 fábricas da empresa, só uma está nos Estados Unidos. Outras duas estão na China e 15 ficam em Taiwan. 

Para Thomas Monteiro, os Estados Unidos estão pressionando a TSMC e outras empresas para adotarem o “nearshoring”, quando uma companhia mantém a cadeia produtiva de um bem complexo em uma determinada região do globo para que estejam próximas do mercado consumidor. É o contrário do “offshoring”, estratégia que levou para a Ásia plantas fabris de produtos diversos nas últimas décadas. 

“Em dez anos, o mundo estará menos globalizado, as cadeias produtivas estarão mais próximas e também os riscos geopolíticos serão maiores”, sustenta o especialista. “Existe uma necessidade por parte dos Estados Unidos de não se expor tanto a estes riscos”. 

THOMAS MONTEIRO, ANALISTA DA INVESTING.COM.

E estes riscos já aparecem em decisões de investimentos. Em maio deste ano, a Berkshire Hathaway, do megainvestidor Warren Buffett, zerou sua posição na TSMC depois de investir US$ 4,1 bilhões na empresa apenas sete meses antes. A decisão ocorreu após ele expressar publicamente suas preocupações com a geopolítica da região. 

“Não gosto da localização e reavaliei isso. Sinto-me melhor com o capital alocado no Japão do que em Taiwan”, justificou Buffet na ocasião, depois de dizer que a TSMC é “uma das empresas mais bem administradas e importantes do mundo”. 

Mas será difícil deixar de depender da TSMC. Monteiro diz não ter dúvidas de que a companhia asiática ainda está muito à frente de suas concorrentes. “Embora os riscos geopolíticos sejam enormes e uma possível invasão da China a Taiwan esteja presente, o mercado de chips tem uma característica de ser dominado pela empresa que desenvolve a melhor tecnologia”, explica. 

“É um mercado em que o crescimento tecnológico é exponencial e, portanto, é difícil alcançar quem tem uma vantagem. Mas isso está longe de significar que a TSMC vai dar certo para sempre”, argumenta.

Por ora, os futuros de Estados Unidos, Taiwan e TSMC permanecem atados. 

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